Quarta-feira, 31 de Maio de 2006

Felizmente havia luar

FELIZMENTE HAVIA LUAR
 
 
 
       O    O mundo do João estruturou-se, tal como o das outras crianças da sua aldeia, de acordo com o que foi ouvindo e vendo (influências do meio).
     Naquele tempo – referimo-nos aos anos 30-40 – e no meio rural, as pessoas conversavam, sobretudo, sobre aspectos do misticismo popular. Falava-se muito de bruxas e feiticeiras. Dizia-se que se reuniam duas vezes por semana, nas noites de quartas e sextas-feiras.
Mas, não havia só bruxas, havia também lobisomens (transformação do homem em lobo, bode, burro, cavalo, etc.), conversava-se sobre a mula sem cabeça e, ainda mais arrepiante, aquela história clássica: alguém tinha visto uma porca com uma ninhada de pintos ou, então, uma galinha acompanhada por uma ninhada de leitões! As almas penadas esvoaçavam durante a noite e havia locais específicos onde, habitualmente, eram vistos tais fenómenos.
As bruxas reuniam-se nas encruzilhadas das estradas, os fantasmas apareciam durante a noite e, por vezes, eram vistos a entrar nas casas através dos telhados.
Aqueles fenómenos ocorriam durante a noite, na escuridão e a horas pouco convidativas para o humano andar na rua. Havia excepções para casos de emergência ou, então, de obrigação para com as exigências da idade. Enfim, a vida era difícil e, o diabo – dizia-se – era o causador de todos aqueles males. Estava sempre à espreita de alguém menos prevenido para lhe roubar a alma.
O mundo do João, tal como o dos outros habitantes lá da aldeia, organizou-se alicerçado em fantasias que, na maioria das vezes, conseguiam arrepiar as pessoas. O medo acompanhava a imaginação!
Normalmente era ao serão, à lareira no Inverno ou, na rua ao fresco, no Verão que os adultos contavam, uns aos outros, os encontros havidos com personagens do outro mundo. O João foi crescendo e ouvindo, mas não percebeu que ouvia “coisas” que nunca eram relatadas na 1.ª pessoa.
As situações narradas aconteciam sempre a terceiros. Alguém tinha dito que em tal sítio e a tal pessoa, a determinada hora da noite, tinha acontecido alguma coisa extraordinária, sempre relacionada com Satanás!
O João ouvia, de olhos arregalados, as histórias que os adultos contavam. Muitas vinham do tempo dos avós dos narradores e, convictamente, o João foi registando aqueles conteúdos sobre a realidade que então se vivia durante a noite.
Assim, aqueles fenómenos foram ganhando forma e, claro, o João fazia a sua representação! Ele, mesmo de dia, conseguia ver os seus contornos.
O João foi crescendo e, depois, na adolescência e juventude, quando necessitava de se deslocar, durante a noite, pelo campo – sozinho ou acompanhado – ia sempre em estado de alerta para o que de estranho pudesse surgir. Era um estado propício para aceitar a situação de medo! Assim, o mais pequeno ruído provocado pelo menor movimento de qualquer ave ou animal nocturnos, era suficiente para o deixar com os pêlos em pé!
Contamos, agora – tal como o João contava – o que aconteceu naquela noite. Tinha ele cerca de quinze anos e vinha, sozinho, de um baile na aldeia que distava da sua casa – a medida era o tempo – cerca de uma hora, a pé. Para o baile, O João ia e vinha a pé porque “a pé” era o transporte mais usado naquele tempo.
Estava uma noite de lua cheia e, seriam três ou quatro horas da madrugada. A determinada altura, o João, começou a ouvir um barulho que ele descrevia como “tac, tac” – lido com (a) fechado. Segundo ele, de início tentou, sem parar, identificar a origem de tal barulho mas, não conseguiu!
Não conseguiu identificar o barulho mas, segundo dizia, percebeu que: o ritmo era sempre o mesmo; começou a ficar incomodado e, a determinada altura parou.
Aconteceu que, dizia o João, O “tac, tac”, parou também! Voltou a caminhar e lá estava, o mesmo barulho no mesmo ritmo. Parou novamente e aconteceu o mesmo! Claro que, perante aquela situação tudo o que tinha interiorizado sobre “medos” lhe veio à memória, especialmente “os medos” que constavam no roteiro daquele caminho. Naquela época todos os caminhos tinham fantasmas que provocavam medo!
Obviamente que, hoje, todos sabemos o que naquele momento se passava na cabeça do João mas, contava ele: com o passar do tempo, cada vez dava menos passos e, logo, parava! Assim, a todo o momento, parava e escutava! A determinada altura dava um passo e logo que ouvia o “tac”, parava para escutar! O seu estado de alma estava, naquela noite, a ficar muito deteriorado. Começou a sentir frio e a ficar com a pele húmida. Em síntese, segundo dizia: estava desconfortado. Isto dizia ele mas, lá na aldeia, todos se riam e comentavam: desde quando o medo se traduz, apenas, por desconforto? A situação era muito mais complexa.
Ora, numa situação como aquela, o cérebro do João começou a organizar os meios de defesa mas, pior que tudo: não conseguia identificar o fantasma! Assim não sabia como defender-se! E, como consequência, interrogava-se: defender-me de quê? Como? Se não sei a origem do “tac, tac” e também não percebo de que lado vem?
Embora envergonhado, consigo mesmo, surgiu-lhe a solução – contava ele – para sair daquela situação: o melhor seria correr e, esta hipótese começou a tomar sentido. Felizmente havia luar, caso contrário o João teria corrido até poder!
Mas, naquele anda pára, anda pára, aconteceu que numa tentativa de apurar mais a audição, o João inclinou a cabeça e, para alívio seu, o olho esquerdo viu a ponta de um cordão a cair sobre a aba do chapéu e então percebeu onde estava a causa do mau bocado que tinha passado.
Convém dizer que naquele tempo todas as pessoas cobriam a cabeça com chapéu ou boina e, para o baile, levava-se “chapéu fino”! Neste, para além da fita que circundava a copa, havia um reforço feito por uma espécie de atacador redondo e consistente que terminava com um laço (alguns chamavam-lhe aselha). Ora bem, aconteceu que, segundo contava o João, o laço se desfez e uma das pontas do cordão descaiu e começou a bater na aba do chapéu. Aí estava a origem do “tac,tac”!
Quando o João contava esta história, terminava sempre assim: imaginem qual teria sido a frequência do “tac, tac”, se naquela noite não houvesse luar! Mas as pessoas, lá da aldeia, continuavam a entreolhar-se e, em voz baixa, insinuavam: a frequência e o ritmo do “tac, tac” interessavam pouco. Importante seria saber como teriam ficado as ceroulas do João se aquela noite não fosse uma noite de luar
publicado por blogue-da-usal às 10:10
link do post | comentar | favorito
1 comentário:
De nazareth a 5 de Dezembro de 2006 às 17:30
achoa usal algo muito interssante pois dá a oportunidade a muita gente de aprender coisas novas comoa internt o covivio as amizades enfim uma série de atividades que faz com que os mais iddosos estejam menos sós que muitas vezes alguns se não fosse este convivio estariam a maior prate do tempo sózinhos na solidão nazare neves


Comentar post

.mais sobre mim

.pesquisar

 

.Fevereiro 2007

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3

4
5
6
7
8
9
10

11
12
13
14
15
16
17

18
19
20
21
22
23
24

25
27
28


.posts recentes

. A Primavera

. Falar de Carnaval

. Ecos da Folia

. O Meu Carnaval

. Infortúnio

. Ser Positivo

. O Carnaval

. Natal

. Um Outro Natal

. Ano Novo

.arquivos

. Fevereiro 2007

. Janeiro 2007

. Dezembro 2006

. Outubro 2006

. Junho 2006

. Maio 2006

. Abril 2006

. Março 2006

.links

.links

blogs SAPO

.subscrever feeds